Leaders Logo

QuestPDF e .NET: Padrões Arquiteturais para Geração de Documentos em Sistemas Distribuídos

Fundamentação: QuestPDF e geração determinística de layout

QuestPDF é uma biblioteca .NET que permite gerar PDFs por meio de bibliotecas baseadas em composição de layouts (QUESTPDF, 2026). Em vez de converter HTML/CSS para PDF, o QuestPDF descreve explicitamente a hierarquia de containers e componentes, reduzindo a ambiguidade de renderização e fornecendo controle fino sobre tipografia, espaçamentos, grids e tabelas. Na prática, isso desloca a “fonte de verdade” do layout para o código, o que facilita versionamento, revisão e testes em pipelines de CI/CD.

Do ponto de vista operacional, um gerador de PDF é sensível a variáveis como fontes disponíveis, imagens e uso de memória. O modelo determinístico de composição reduz variabilidade entre ambientes, mas não elimina a necessidade de padronização de assets (p.ex., incorporar fontes no container ou distribuí-las como recursos do serviço). Assim, a biblioteca é parte da solução; o restante depende do desenho arquitetural de como dados são coletados, como o documento é gerado (sincrono vs. assíncrono) e como o artefato é entregue e auditado.

Materiais e métodos

O método adotado é descritivo e aplicado, orientado a padrões de arquitetura de software e práticas de engenharia. Parte-se do problema de geração de documentos em sistemas distribuídos e modela-se um fluxo de referência: (i) coleta de dados por serviços de domínio, (ii) composição do payload de geração, (iii) geração do PDF via serviço dedicado e (iv) entrega/armazenamento do artefato. Em seguida, discute-se como requisitos não funcionais (latência, escalabilidade, rastreabilidade e segurança) influenciam as decisões de implementação.

Os trechos de código apresentados têm caráter ilustrativo e visam demonstrar interfaces e responsabilidades, não constituindo um benchmark formal. O foco é enfatizar separação de preocupações (layout vs. domínio), reprodutibilidade (idempotência e cache) e observabilidade (tracing e métricas) como critérios de qualidade para serviços de geração.

Arquiteturas de referência para geração de documentos

Imagem SVG do Artigo

Microserviços e isolamento da capacidade de renderização

Em arquiteturas de microserviços, a geração de documentos é frequentemente isolada em um serviço dedicado (document service) (NADAREISHVILI, 2016). Essa separação reduz o acoplamento entre regras de negócio e renderização, evita que serviços de domínio carreguem dependências de layout e permite escalar horizontalmente a geração de PDFs de forma independente. Além disso, o isolamento favorece governança do ciclo de vida do documento (versionamento, auditoria e retenção), pois o serviço de documentos torna-se o ponto natural para aplicar políticas uniformes.

O serviço dedicado pode receber comandos sincrônicos (HTTP) quando o usuário final precisa do documento imediatamente, ou assíncronos (mensageria) quando o documento é pesado, quando há picos de carga ou quando a geração deve ser resiliente a falhas temporárias. Independentemente do modo de invocação, recomenda-se que o serviço opere sobre DTOs já normalizados e validados, evitando dependência direta em banco de dados de domínio ou chamadas em cascata durante a renderização.

public class DocumentGenerationService
{
    public async Task<byte[]> GenerateInvoiceAsync(Invoice invoice)
    {
        var document = new InvoiceDocument(invoice);
        return document.GeneratePdf();
    }
}

API Gateway e composição de dados

O API Gateway pode atuar como fachada do sistema, centralizando autenticação, versionamento, rate limiting e roteamento (LEVCOVITZ et al., 2016). Em cenários de documentos, ele pode orquestrar chamadas para múltiplos serviços a fim de construir um payload completo (por exemplo, dados de pedido, cliente e pagamentos) antes de solicitar a geração do PDF. Essa abordagem melhora a experiência do consumidor da API, mas deve ser usada com cautela para evitar que o gateway se torne um orquestrador complexo e difícil de manter.

Uma alternativa é deslocar a composição de dados para um serviço de aplicação (backend-for-frontend ou orchestration service) que monta o DTO e chama o serviço de documentos. Assim, o gateway mantém-se fino e os fluxos ficam mais testáveis. A escolha depende do grau de complexidade e do modelo organizacional de responsabilidades.

public class DocumentsController : ControllerBase
{
    private readonly DocumentGenerationService _service;

    public DocumentsController(DocumentGenerationService service)
    {
        _service = service;
    }

    [HttpPost("invoice")]
    public async Task<IActionResult> Generate([FromBody] Invoice invoice)
    {
        var pdf = await _service.GenerateInvoiceAsync(invoice);
        return File(pdf, "application/pdf", "invoice.pdf");
    }
}

Mensageria e processamento assíncrono

Para documentos com alto custo de renderização (muitas páginas, imagens, tabelas extensas) ou quando a geração ocorre em lote, o processamento assíncrono é preferível (STAAR et al., 2018). Nesse modelo, a API recebe a solicitação e publica um comando/evento em uma fila (p.ex., Azure Service Bus, RabbitMQ ou Kafka). Um worker consumidor realiza a geração do PDF e persiste o artefato em um repositório de objetos (Blob Storage, S3) ou no banco, retornando um identificador para consulta posterior. Essa estratégia melhora resiliência e evita timeouts no caminho síncrono, ao custo de maior complexidade de consistência e UX (o usuário precisa aguardar/consultar o resultado).

Uma implicação importante é a idempotência: mensagens podem ser entregues mais de uma vez, e o sistema deve tratar isso sem produzir duplicidade ou inconsistências (SABBAG FILHO, 2025). Assim, a chave de idempotência (por exemplo, o hash do payload normalizado) torna-se um elemento central do desenho.

Estratégias de escalabilidade e qualidade em produção

Separação entre domínio e layout

Uma prática essencial é evitar misturar regras de negócio com código de layout. O documento deve receber um DTO pronto, isto é, uma estrutura com os dados necessários e já calculados (totais, impostos, regras de exibição). Com isso, a classe de documento concentra-se na apresentação, enquanto serviços de domínio/aplicação permanecem responsáveis por validação e cálculos. Esse arranjo tende a reduzir efeitos colaterais, facilita testes e diminui a probabilidade de divergência entre o estado do negócio e o documento renderizado.

Na prática, organiza-se o código por tipos de documento (por exemplo, invoice, report, contract), e cada tipo possui um layout versionado. Versionamento é relevante quando a empresa precisa regenerar documentos historicamente, respeitando o layout vigente na data de emissão.

Cache e idempotência

Documentos são frequentemente requisitados com os mesmos dados (reimpressão, reenvio, auditoria). Nesses casos, é eficiente utilizar cache por conteúdo (MERTZ; NUNES, 2017). Um procedimento comum é computar um hash do payload (ou uma chave composta por identificadores e versão do layout) e usar essa chave para localizar o PDF previamente gerado em um armazenamento rápido (p.ex., Redis) ou em um storage de objetos. Com isso, reduz-se custo computacional, melhora-se latência e, em cenários assíncronos, simplifica-se o tratamento de reentregas de mensagens.

Entretanto, a estratégia de cache exige cuidado com invalidação: mudanças em dados de domínio ou no layout devem alterar a chave. Recomenda-se incluir explicitamente um campo de versão de layout e, quando aplicável, um campo de “versão de cálculo” para refletir mudanças de regras de negócio que afetam o documento.

Observabilidade e SLOs

Em produção, a geração de documentos deve ser observável. Isso envolve rastreamento distribuído (correlacionando a requisição do usuário até a geração e persistência), logs estruturados com identificadores de documento e métricas como tempo de renderização, tamanho do arquivo gerado, taxa de cache hit/miss e taxa de falhas por tipo. Com OpenTelemetry, é possível padronizar tracing e métricas, e definir SLOs (por exemplo, percentis de latência para geração síncrona ou tempo de conclusão para filas assíncronas).

Um detalhe frequentemente negligenciado é a coleta de métricas por “classe” de documento. Documentos distintos têm custos muito diferentes (uma fatura simples vs. um relatório com dezenas de páginas). Sem essa segmentação, alertas e capacity planning tornam-se imprecisos.

Implementação: exemplo em C# com QuestPDF

A seguir apresenta-se um exemplo mínimo de documento para fatura, com foco na estrutura de composição. Em cenários reais, recomenda-se encapsular estilos (tipografia, cores, espaçamentos) em uma camada compartilhada e utilizar recursos para imagens/logotipos, garantindo consistência visual entre documentos.

public class InvoiceDocument : IDocument
{
    private readonly Invoice _invoice;

    public InvoiceDocument(Invoice invoice)
    {
        _invoice = invoice;
    }

    public DocumentMetadata GetMetadata() => DocumentMetadata.Default;

    public void Compose(IDocumentContainer container)
    {
        container.Page(page =>
        {
            page.Margin(40);
            page.Content().Column(column =>
            {
                column.Item().Text($"Cliente: {_invoice.CustomerName}").Bold();

                foreach (var item in _invoice.Items)
                    column.Item().Text($"{item.Description} - {item.Quantity} x {item.Price}");

                column.Item().Text($"Total: {_invoice.Total}").Bold();
            });
        });
    }
}

Observa-se que o exemplo retorna um array de bytes. Em serviços de documentos, é comum acoplar essa saída a uma estratégia de armazenamento (por exemplo, persistir no blob e retornar uma URL temporária) e, quando necessário, anexar metadados (identificador, versão do layout, checksum e timestamps) para auditoria e reprocessamento controlado.

Ambiente heterogêneo: contraponto em Go

Em organizações com múltiplas stacks, serviços não-.NET também podem produzir PDFs. A decisão por centralizar a geração em um único serviço (por exemplo, .NET com QuestPDF) ou permitir múltiplos geradores (um por stack) envolve trade-offs. Centralizar reduz variação visual e concentra governança de layout; distribuir permite autonomia de times e evita dependência tecnológica, porém aumenta o risco de inconsistência entre documentos e dificulta padronização.

O trecho a seguir ilustra, de forma simplificada, um gerador em Go. Embora seja funcional, ele evidencia que a consistência de layout e tipografia exigirá disciplina adicional, especialmente quando documentos precisam ser equivalentes entre stacks diferentes.

func GenerateReport(report Report) ([]byte, error) {
    pdf := gopdf.GoPdf{}
    pdf.Start(gopdf.PageSizeA4)
    pdf.AddPage()
    pdf.SetFont("Arial", "", 14)
    pdf.Cell(nil, report.Title)
    pdf.Br(20)
    pdf.Cell(nil, report.Content)
    return pdf.WritePdf()
}

Segurança, privacidade e conformidade

Documentos frequentemente contêm dados sensíveis (PII, informações financeiras e contratuais). Portanto, a arquitetura deve considerar criptografia em repouso e em trânsito, controle de acesso baseado em identidade e autorização, URLs temporárias (signed URLs) para downloads e auditoria de acessos. Em contextos regulatórios como LGPD, recomenda-se ainda minimização de dados no documento, mascaramento quando aplicável, política de retenção e mecanismos de exclusão/anonimização quando exigidos por obrigações legais.

Outra consideração prática é o tratamento de logs: jamais registrar conteúdo do documento ou payload completo sem necessidade. Em geral, registra-se apenas identificadores, hashes e metadados essenciais para diagnóstico.

Discussão e ameaças à validade

A proposta apresentada enfatiza separação de responsabilidades, idempotência e observabilidade, mas há limitações. Primeiramente, não foi conduzida avaliação experimental (benchmark) comparando QuestPDF com alternativas HTML-to-PDF ou bibliotecas de outras linguagens. Assim, conclusões sobre desempenho devem ser interpretadas como recomendações de engenharia baseadas em propriedades arquiteturais e experiência prática, não como prova empírica formal.

Além disso, a eficácia do cache depende da estabilidade do payload e da frequência de reimpressões. Em domínios com dados altamente voláteis, o cache pode ter baixa taxa de acerto. Por fim, a escolha entre síncrono e assíncrono envolve a experiência do usuário e requisitos de negócio: há casos em que o usuário precisa do PDF imediatamente, o que força otimizações no caminho síncrono e aumento de capacidade para lidar com picos.

Conclusão

O QuestPDF oferece uma abordagem moderna e controlável para geração de documentos em ambientes .NET, com vantagens relevantes para arquiteturas distribuídas devido à previsibilidade e ao controle programático do layout. Ao tratar documentos como uma capacidade independente, idealmente por meio de um serviço dedicado, e ao combinar padrões como cache, idempotência e mensageria, é possível obter uma solução escalável, resiliente e observável para workloads corporativos.

Como trabalho futuro, recomenda-se avaliar empiricamente o desempenho e o consumo de recursos em diferentes classes de documento, bem como comparar estratégias de persistência (blob vs. banco) e políticas de versionamento de layout sob requisitos de auditoria e reprocessamento.

Referências

  • QUESTPDF. Documentation. Disponível em: https://www.questpdf.com. Acesso em: jan. 2026. reference.Description
  • NADAREISHVILI, Irakli et al. Microservice architecture: aligning principles, practices, and culture. " O'Reilly Media, Inc.", 2016. reference.Description
  • LEVCOVITZ, Alessandra; TERRA, Ricardo; VALENTE, Marco Tulio. Towards a technique for extracting microservices from monolithic enterprise systems. arXiv preprint arXiv:1605.03175, 2016. reference.Description
  • STAAR, Peter WJ et al. Corpus conversion service: A machine learning platform to ingest documents at scale. In: Proceedings of the 24th ACM SIGKDD International Conference on Knowledge Discovery & Data Mining. 2018. p. 774-782. reference.Description
  • SABBAG FILHO, Nagib. Idempotence in Distributed Systems: Ensuring Consistency in APIs and Messaging. Leaders Tec, v. 2, n. 31, 2025. reference.Description
  • MERTZ, Jhonny; NUNES, Ingrid. Understanding application-level caching in web applications: a comprehensive introduction and survey of state-of-the-art approaches. ACM Computing Surveys (CSUR), v. 50, n. 6, p. 1-34, 2017. reference.Description
Sobre o autor